terça-feira, 24 de julho de 2012

"PEQUENA HISTÓRIA DUM IDOSO" por Rivaldo Roberto Ribeiro


Segunda-feira, o tempo está nublado e cinzento, parecia que não ia chover muito, mas caia uma garoa fria e intermitente. Depois de cumprir na vida com suas obrigações, caminhante deste mundo a tempos, Berto está sentado num banco daquele café, observando todos que passavam, via neles seu passado de sonhos, via neles uma indiferença egoísta cada um com a cobiça de alcançar fortunas e sucesso, que com certeza não chegarão a todos. Melancólico, só restava a saudade das crianças e da sua juventude...

Mas Berto sempre foi um homem que questionava a vida e seu sentido, assim resolve que seria um velho alegre e feliz. Tinha sabedoria, sabia contar muitas estórias para os netos, iria realizar algumas travessuras, pois a idade lhe permitia isso. Pegou o guarda-chuva e foi caminhando com cuidado lembrando das recomendações de sua esposa, "se quebrar algum osso, meu velho nessa idade é difícil de se ajeitar", pois a rua parecia lisa. Era a primeira Segunda - feira que não tinha para aonde ir... Voltou para casa.


A sua mão traduzia uma vida dura e honesta, com calos e cicatrizes, que atestavam os seus esforços na tentativa duma vida melhor a si e aos seus, hoje um sobrevivente herói na construção dum país que às vezes não o reconhece, ficar doente? O SUS assusta...

Sua mão deformada com nós nos dedos pelo esforço é comovente (...), quando ele com um gesto lento passou sobre a boca o polegar curvo, que tantas vezes usou como alicate, anos de arrebatamento e trabalho, do cansaço e por fim a sonolência da tarde.

Agora não se pode exigir do seu corpo a juventude, a sua coluna já curva e pouco móvel não sustenta o seu peso como antes. Seus olhos perdem o brilho e exige o auxílio das lentes. O ouvido perde a sua sensibilidade e a saliva diminui comprometendo a digestão. A musculatura enfraquece e diversos outros órgãos funcionam com mais dificuldades. A sua identidade se revela na sua pele mais escura e com as rugas, e seus cabelos brancos denunciam a sua sabedoria e o pecúlio do espírito humano.

Berto sempre fez das suas narrativas aos mais jovens como se estivesse pedindo perdão pela sua velhice. Contava sempre que ajudou a construir o hospital da cidade, o clube, a igreja, aquela ponte, a escola etc. Desconfiado da falta de crédito, afirmava que tinha fotografias, evitando assim a descrença ou o sarcasmo dos ouvintes.

Numa dessas reuniões familiares, Berto ouve da sala da frente que é bem pequena, sua esposa Dona Vitória, com sua voz doce e conciliadora sendo entrevistada pelos seus netos. Curiosos como todas as crianças, queriam saber sobre tudo. Dona Vitória com seu jeito envolvente, sua paciência, seu carinho maternal de vó, respondia a todas as perguntas que eram disparadas sem parar. No meio daquela balbúrdia, aproveitava a oportunidade para ressaltar seus exemplos quando menina: de obediência, seus valores morais e religiosos, o respeito que foi dispensado as seus pais e mestres, e principalmente aos mais velhos. Qualidades que hoje lhe rende um carinho especial da sociedade local.
Berto, com a vista turva descobria que o tédio das horas constantes terminara, e o sentido do resto da sua vida estava ali na sua frente..., Tinha uma família maravilhosa..., afastou-se com os passos lentos e macios, e começou a planejar a sua primeira travessura, iria encher algumas bexigas coloridas, comprar um saco de balas, convocar os netos e bagunçar a casa, e com isso já matutava alguma desculpa a um possível protesto de Dona Vitória...



segunda-feira, 23 de julho de 2012

A TECELÃ,


Clique nas imagens para ampliar.










A T E C E L Ã,Minha esposa
Rivaldo R. Ribeiro

Uma artista que não assina suas obras está sentada com um semblante de sonhos e sono tecendo na sala.
De forma improvisada com sua agulha como se fosse uma varinha de condão entrelaça os fios de algodão como se fossem fios de ouro, criando trabalhos em forma de folhas, flores, animais e formas geométricas que serão recompensados com pouca esperança de valores materiais, mas se sente feliz em ver a sua obra terminada, como toalhas, cortinas, tapetes, almofadas etc.
Na loja, o novelo de barbante inerte calado, não imagina no que será transformado quando desce das prateleiras e vai para as mãos da tecelã. Não será mais usado para amarrar pacotes, sabe-se lá com o que dentro. Será transformado na beleza, admirado, enfeitar os ambientes, preencher os vazios, com as formas que a tecelã já imagina em criar, que tantas vezes sem medir esforços acorda bem cedo quando o sol ainda se mexe devagar com o rosto no travesseiro, para que as suas inspirações cheguem mais nítidas, e às vezes sofre por não saberem reconhecer o seu esforço.

-Nossa mãe!...A primeira voz que a tecelã ouve, é sua filha que é já uma poderosa força vital feminina que acorda. Nossa mãe! Que lindo... Esse é nosso? A tecelã respondeu que sim... Porém...

Em tempos difíceis a tecelã recorre a força de suas orações e de porta em porta expõe seu trabalho da melhor forma possível, muitas vezes a olhos que nada vêem e não imaginam a profunda fé e esperança que ela depositou naquele trabalho, pois será impalpável esta fragrância divina, mas ela não desiste... Seu caminho é aquele... Logo a frente encontra olhos que enxergam claramente a autenticidade de sua criação...

De volta para casa, a amiga da vida duplica sua alegria com seu sorriso cativante, irá comprar outro novelo de barbante que será transformado em outra obra de arte, e salvo do destino de amarrar embrulhos e pacotes, mas agora é outro momento, deixa a agulha de lado que irá descansar de seu balé, assim volta para seus sonhos: preparar os filhos para irem a escola...

A tecelã não imagina que no seu modo simples e batalhador, é um molde para que seus filhos a seguem no exemplo na construção de seus próprios destinos, que é o fermento que transforma a sua família numa massa homogênea de amor, união e fraternidade, êxito que nasceu na qualidade de sua coragem.

Assim vejo minha esposa, que Deus um dia me deu de presente, acrescentando nossos dois filhos, e às vezes a incapacidade de entender o que realmente interessa reclamamos da vida...

Meu espírito se compraz de três coisas que têm a aprovação de Deus e dos homens:
A concórdia entre os irmãos, o amor dos próximos, e um marido e mulher que se dão bem entre si. Eclesiástico. 25,1-2.

"Jacira ou Fia como gosta de ser chamada, eu ti amo minha querida esposa."








Amigos-Vinicius de Moraes


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor. Eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários.

De como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, trêmulamente construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer ... Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando
comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

PESQUISE SOBRE: VINÍCIUS DE MORAES


 

domingo, 1 de julho de 2012

"ULTIMA FLOR DO LÁCIO"

"Ultima flor do Lácio", usa-se esta expressão para designar a língua portuguesa que teve a sua origem como a última das línguas derivadas do latim, sendo "Lácio" o nome da região da Itália onde fica Roma. Quem criou a expressão foi o poeta brasileiro Olavo Bilac no seu soneto LÍNGUA PORTUGUESA, no primeiro verso onde se lê "Última flor do Lácio, inculta e bela", inculta porque já naquele tempo sofria maus tratos, e continuava bela...

Num país gigante como o nosso, seu regionalismo, suas diferenças sociais levam a população a falar alguns dialetos, ou modificações na pronuncia na linguagem coloquial, tornando-se as palavras em seres vivos mutantes, como numa fluidez de água corrente, misturam-se idéias, confunde-se, tornando-se sua "foz" mais forte, mais sonora e dinâmica, criando assim a sua identidade própria.
A discriminação, preconceito, e menosprezo a alguém que fala com erros na pronuncia, não faz sentido, e chegam e ser cruéis, porque a culpa não lhes cabe e todos nós sabemos disso, mas mesmo assim nas suas colocações e a ignorância da sintaxe não quer dizer que não estão falando corretamente língua portuguesa, que na sua complexidade poderíamos cometer enganos ao apontar algum erro nesta linguagem, que possivelmente estariam corretos graças a muitas variantes regionais e dialetos, que são genuinamente populares dentro da cultura e já arraigados.

Assim justamente com capacidade de se eternizar, definindo a nossa brasilidade.

Exemplos como bravo e brabo, assobiar e assoviar; é um processo que já ocorria no Latim Vulgar e se transferiu para nossa língua, sendo ainda muito presente também no Norte de Portugal, onde se ouve, por exemplo, barrer onde diríamos varrer; nesta formação de derivados já existe sinais no Rio Grande do Sul entre bravo e brabo da adoção exclusiva de brabo, assim estas alternâncias de fonemas aparecem com frequência, entre muitos outros.

Portando estas variantes linguísticas, são típicas de determinadas comunidades, ou regiões, enriquecendo o patrimônio cultural da língua portuguesa, que desde a sua origem lá no Lácio até os dias de hoje houve modificações, palavras e fonemas que foram criados no seio da população, onde sentimos o pulsar da vida, a existência povo brasileiro, magnificamente retratada nas obras de João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Érico Veríssimo, Ariano Vilar Suassuna, nas músicas raiz, literaturas de cordel, que são imortais etc.

Quem faz a língua são os falantes, os gramáticos apenas a estudam, se não fosse assim, ainda estaríamos falando a língua do tempo de Camões. Em verdade, nosso repúdio deveria estar na prática dos estrangeirismos, que é confundido com elegância e civilidade, num delírio passivo ao domínio estrangeiro, e na linguagem simplificada na internet, que amputam sem direito a prótese. Também a infiltração de outras culturas merece o nosso repúdio, como o dia das bruxas (halloween), pois ignora nosso rico folclore, enraizado nos mistérios das religiões africanas e outras que ajudaram a formar o caráter do verdadeiro povo brasileiro.

"Ah! Como gostaria deslizar sobre as palavras da nossa língua portuguesa, expor idéias, sentimentos, ser um transmissor das impressões dos personagens que por mim passam cada um com suas histórias, que sofrem calados num mundo coletivo e individualista, que só a iniquidade é levada a sério, e o amor confundido com a hipocrisia".

O motivo que escrevi este texto foi a discordância com algumas pessoas que no alto de seus pedestais, às vezes ridicularizam algum deslize no linguajar de alguém que não teve a mesma oportunidade de se aprimorar nos estudos, e ficaram pelas estradas da vida criando novos dialetos, novas palavras, enriquecendo a nossa língua BRASILEIRA, assim e a eles que devemos a nossa identidade Brasileira, e não a quem fica macaqueando os estrangeiros.

ATRAPALHAÇÕES E PREOCUPAÇÕES. (Rivaldo R.Ribeiro)

Ainda estou na cama e isto coloca a memória funcionando... Ou será que não foi? Eu sou hoje um homem tão cheio de dúvidas. Não sei mesmo se fechei as portas e com isso não consigo dormir, chego até a sentir um peso no meu coração. Eu preciso dormir. Vejamos: na porta da varanda, ao checar o trinco eu fiz ploc-ploc com a língua contra os lábios.

Mas algo me incomoda, minha mulher sempre deixa a luz ligada da varanda quando meu filho sai para as baladas, eu sempre desligo, umas vezes é de pirraça, outras vezes é por causa da conta de energia, outras vezes por distração, mas isso implica na segurança dele, assim é melhor! Olho o teto do quarto e viro para o canto, ouço os barulhos da noite, parece meu filho chegando, não é... calço as sandálias vou para a cozinha tomar um copo de água, vejo que a luz da varanda está desligada. Caminho  para o quarto para tentar dormir, mas a luz da varanda está desligada, e quando meu filho chegar? Alguém poderá esconder no escuro e agarra-lo de surpresa, volto e bato a mão no interruptor e ligo a luz da varanda, e volto para o quarto para dormir, minha esposa resmunga, e pergunta se desliguei a luz da varanda, e respondo que não desliguei e sim que liguei...

A noite vai passando e meu filho não chega do baile, já é muito tempo que a luz está ligada, fico preocupado com a conta de energia, fico preocupado com ele na rua até àquelas horas, fico preocupado com dia que ainda no chegou, porque ainda não consegui dormir.

Meu cachorro late estranho, nunca o ouvi latir daquela forma, acordei minha esposa, preocupado com o latido do cão, e ela disse que ele estava latindo como todos os dias, eu é que estava ficando doido- " fique quieto e dorme" , disse ela. E novamente perguntou se eu não havia desligado a luz, e se nosso filho não havia chegado?? Eu disse que não, uma resposta para as duas perguntas...

A minha memória começa já a trabalhar nas coisas do dia seguinte, ainda não consegui descansar, e amanha será um dia duro, de muito trabalho, tenho que fazer isto e aquilo, o escritório está uma bagunça, não fiz o relatório que o chefe pediu, haverá muitas entregas e tenho de preencher muitas notas fiscais, atender os pedidos, etc.
Levanto novamente, e lembro do trinco da porta da varanda, será que meu filho levou uma chave, contudo não lembro se tranquei a porta, e agora estou em duvidas se liguei ou desliguei a luz, fui até a varanda a luz estava desligada, e quando liguei novamente a luz notei que moto do meu filho estava lá no lugar dela, fui ao seu quarto e para minha surpresa ele também já estava dormindo, pelo jeito há tempos, pois já roncava com seu ronco jovem, ai descobri que minha memória me traia novamente, estava preocupado com o dia seguinte, mas tinha me esquecido que seria domingo.

Voltei ao quarto, larguei-me na cama, só confirmei a pergunta da minha esposa, sim o nosso filho chegou... e adormeci o resto da noite sem nenhuma possibilidade de sonhos...

PARA PENSAR UM POUQUINHO....

"O maior prazer de uma pessoa inteligente é bancar o idiota diante de um idiota que banca o inteligente."
Só de passagem...

Conta-se (no século passado) que um turista norte americano foi à cidade do Cairo, no Egito, com o objetivo de visitar um famoso sábio.

O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros.

As únicas peças de mobília eram 'uma cama, uma mesa e um banco'.

- Onde estão os seus móveis? Perguntou o turista.
E o sábio bem depressa olhou ao seu redor e perguntou também:

- E onde estão os seus?
- Os meus?! Surpreendeu-se o turista.
- Mas estou aqui só de passagem!
- Eu também... - concluiu o sábio.


"A vida na Terra é somente uma passagem... No entanto, alguns vivem como
se fossem ficar aqui eternamente e se esquecem de ser felizes."


"NÃO SOMOS SERES HUMANOS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL... SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA HUMANA."

A.D.